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Um pouco de história.

2009/04/20
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Tenho tentado partilhar convosco uma tentativa de contextualizar o universo dos jogos de tabuleiro. Este será o sexto fascículo em que se poderá rever o 1 ,2 ,3 ,45 ao clicar no respectivo algarismo.

O que explica este fenómeno de a Europa produzir algo que adquiriu personalidade e vida própria? Qual a história associada? Fiz as minhas investigações e proponho-me resumir (difícil) o que aprendi.
Bem, … a Europa? Toda a Europa? Não, a Alemanha. Eurogame é sinónimo de German game.
Aí está o berço deste fenómeno, mas a classificação “German Game” não significa exclusivamente  “jogo da Alemanha”. Alan Moon (EUA), Martin Wallace (UK), consagrados autores, Ystari (França), CzechBoardGames (rep. Checa), Phalanx (Holanda) reputadas editoras, são apenas alguns exemplos como o conceito abrange vários países e continentes.
Na década de 80, o panorama de jogo na Alemanha era essencialmente focado nos jogos familiares passíveis de serem jogados com crianças.
A oferta do mercado Alemão era ao sabor da corrente e portanto pouco inovadora, em que os poucos jogos que introduziram novos conceitos e ideias foram os primeiros vencedores do agora prestigiante e na altura embrionário prémio “Spiel des Jahres” (Jogo do Ano).
A oferta forte na época vinha dos EUA! MB, Games Workshop, 3M, Parker eram os grandes editores. Distribuidores Alemães (e.g. Schmidt Spiele) apostavam na edição em língua Alemã dos  best-sellers estrangeiros (Talisman, DungeonQuest, Axis & Alies, etc) por forma a melhorar a oferta no mercado Alemão.
(Note-se que passados 30 anos, este fenómeno ocorre na Ibéria : Devir, Edge, Runadrake… editam agora em língua castelhana ou português os best-seller actuais. Portanto daqui por 30 anos haveremos de ver um camião da ?? em Tour pelo país a promover “A Pirâmide de Tutankamon“)
Entretanto os “Role-Playing games” ganhavam adeptos (A Dungeon&Dragons -1974/1989- e similares), bem como os “Collectible Card Games” (Magic the Gathering – 1993).
Em 1995 ocorre uma mudança radical no universo do jogo na Alemanha. Klaus Teuber e a Kosmos  lançam um jogo chamado … Die Siedler von Catan – Os Descobridores de Catan. Enorme sucesso intra-muros, premiado por júris e pelo público torna-se o maior embaixador deste hobby, não tardando a alcançar os EUA através da Mayfair Games.
Até à data Catan ou Carcassonne ou Ticket To Ride, já venderam mais cópias do que muitos dos famigerados video-jogos, não beneficiando contudo de equivalente cobertura mediática.
Catan foi o detonador para a cena do mercado de jogos na Alemanha. Num ápice surgiram novos editores e novos autores, produzindo muito mais em meia dúzia de anos do que nas décadas anteriores.
O que explica esta explosão?
A sociedade Alemã estava bem preparada para disfrutar destes jogos. Há muito que o jogo de tabuleiro é visto com uma ferramenta por excelência na educação infanto-juvenil. Haba, Selecta, Ravensburger, Kosmos têm uma longa e prestigiada tradição na área didáctica de qualidade, criando-se assim de uma forma sustentada a capacidade para rapidamente entender e apreciar jogos mais elaborados, mais exigentes sob o ponto de vista intelectual, mas obviamente mais recompensadores.
Por cá, ir além de um party-game ou de um jogo da glór…desculpem de um Monopólio será demasiado esforço para a maioria.
Pois, por mais que não se queira, não se fica sempre criança e essas crianças Alemãs cresceram e estavam (invisivelmente) ávidas de um passatempo minimamente interessante e inovador.
Catan foi (ou é) um jogo que conserva um bom balanço entre tempo de jogo, estratégia, interacção, complexidade, sorte e divertimento. Era portanto adequado para um jogo em família mas também para uma noite calma e relaxada entre amigos adultos. Muito importante, não era um jogo de fantasia, já que este tipo de jogos (veja-se 12) – nomeadamente os RPG, não são muito do agrado dos Alemães adultos.
Outro factor importante é a qualidade estética dos jogos. Os editores dedicaram especial cuidado na produção dos componentes do jogo. Sempre que possível a madeira substituiu o plástico e “designers” famosos foram contratados para os ilustrar. Para os jogadores Alemães estes jogos apareceram com muito mais qualidade do que os algumas vezes muito frágeis jogos com componentes de plástico e cartão de caixa de sapatos produzidos por exemplo pela MB.
Mas estes jogos não foram uma inovação apenas para a sociedade Alemã.
Em finais da década de 90, os apreciadores de jogos nos EUA e RU, sentiam exactamente a falta de jogos do tipo Catan. Fáceis de aprender/ensinar, rápidos, jogáveis em família ou com amigos.
Rapidamente, após conhecer-se o Catan, deseja-se por mais. Outras editoras entram no mercado, Goldsieber, Hans im Glück,.. e novos excelentes jogos cativam as atenções, El Grande, Löwenherz (Domaine), Mississipi Queen, etc.
Entretanto, nas faixas etárias mais jovens, RPG e CCG (Magic notavelmente) continuam a expandir exponencialmente a sua legião de fãs.
Os jogos de tabuleiro (especialmente os Alemães) tornam-se, mais do que nunca, mais desafiantes, mais atraentes e mais interactivos. O efeito do trabalho desenvolvido pelas editoras alemãs neste universo dos jogos de família/tabuleiro é comparável ao da Nintendo nos video-jogos, fazendo-os mais inovadores e cativantes.
O rastilho propaga-se e hoje em dia realizam-se convenções pelo mundo fora (EUA e até Portugal), juntando dezenas ou centenas de apreciadores desta ferramenta social, para jogar jogos como “Puerto Rico”, “Power Grid”, “Automobile”, “Caylus”, “Agricola”, “Fits” tudo jogos criados por autores Europeus.
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5 comentários leave one →
  1. 2009/04/21 09:08

    Na verdade muita gente se queixa do Catan exactamente porque Catan é uma ilha fictícia o que dá aspecto de “fantasia” à coisa.

    O caso mais engraçado que vi foi um apelo na Amazon à mudança de nome do Catan pois caso isso não aconteça corre o risco de não se tornar “mainstream”.

    Curiosamente, após ler sobre a história dos jogos de tabuleiro sinto-me sempre a ovelha negra do rebanho, tendo eu conhecido o hobby através de Magic e não através do habitual Monopólio e Trivial Pursuit (que também joguei umas 3 ou 4 vezes :p)

  2. flotsi permalink
    2009/04/21 09:24

    Muito boa achega Tiago.
    A propósito da importância do Marketing, quando comecei neste hobby era difícil encontrar jogos bons “Alemães” que, já de origem, contivessem regras além da língua Alemã. Lembro-me que na altura foi um dos critérios que me levou a decidir comprar o SanMarco e o Java, ambos jogos da Ravensburger mas não editados pela Alea, que tinham também regras em Italiano e Francês. Ou seja, até no facilitar a divulgação do jogo através do acesso simples ao conhecimento das suas regras, os Alemães foram sempre muito conservadores. Julgo até que esta viscissitude foi um dos motivos para o sucesso do BGG.
    Junto das crianças que conheço é visível como um nome “Travia” soa muito melhor do que “Catan”; o que está por detrás disso?.. algo que não domino.

    Na entrevista ao B. Faidutti resumi como cheguei a este hobby, atendendo que só devo ter jogado uma vez o Monopólio e poucos mais outros jogos (+ Petróleo) também concluo que não serei um caso típico (de todo ..lol). No entanto o teu exemplo é mais frequente, leio muitas opiniões de adultos que relatam a sua transição do Magic para este universo. Ou porque encontraram outro encanto, ou porque amadureceram ou simplesmente porque se cansaram de serem sugados dos seus Euros “assim como quem não quer a coisa”, característico dos $CCG$.

  3. abruk permalink
    2009/04/22 17:00

    Boa Pedro! Mais um belo artigo de opinião. Achei graça à sugestão da mudança de nome do Catan!
    Já agora porque razão puseste o Fits? É da Ravensburger? E é novo, certo? Parece ter pinta de jogo divertido!
    Pessoalmente comecei pelo jogo de karting da Majora (que saudades) e também pelo jogo da Glória que ainda anda pelo mercado, depois veio o Monopólio (foi a minha febre nas férias grandes de 1988) e com ele a Bolsa e os Petroleiros(que comprei mas nunca joguei, onde é que já ouvi isto!?!). Depois um interregno de muitos anos (2007) com este tempo todo a ser preenchido por ZX Spectrum +2 (load””); um 286 com 20Mb de HDD e depois CM2, Sensible Soccer, Match Day, Max Payne e tantos outros videojogos!
    Agora é mais Yucata.de! hehe

    • flotsi permalink
      2009/04/22 17:23

      “porque razão puseste o Fits”
      bem..tinha de colocar algum do Knizia, quer dizer …do Tavitian ou será antes do Pajitnov? 🙂

      aaah o Karting da Majora, tb acho que o joguei, gostava de o rever.. sim e também estraguei muitas mebranas do Spectrum graças ao MatchDay.

  4. 2009/04/22 18:21

    Acho que é realmente engraçado vermos as nossas “origens”. Eu desde pequena que me lembro de gostar muito de tudo o que era jogo. Só que claro, apareciam eram os clássicos: Bolsa (era o meu favorito lol), Monopólio, Jogos sem Fronteiras, Volta ao Mundo, 300 versões de jogos da Glória, e até coisas como Quem é Quem, Mastermind, Mikado. LOL

    “Portanto daqui por 30 anos haveremos de ver um camião da ?? em Tour pelo país a promover “A Pirâmide de Tutankamon“)”

    Achei piada a esta ideia de “evolução”, quem sabe, se em Portugal não se dá essa “explosão”… Pelo menos acho que todos temos feito bastante para mostrar aos nossos amigos/conhecidos o que são os jogos, acho que estamos no bom caminho de “espalhar” a palavra, com tudo o que tem sido feito ultimamente. Mas as coisas mudam muito lentamente… e vai acabando por ser só um nicho de pessoas a apreciar os jogos como nós. Esperemos é que vá sendo um nicho cada vez maior =D

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